19.4.18

Vita brevis

A vida é demasiado breve,
para não ser longa,
e contigo.

O tronco comum

Descubro, com espanto e devoção, que dois dos escritores que, por terem existido, lavraram a minha existência, descendem, literarariamente, de um tronco comum que os antecedeu de dois séculos. Apesar de contemporâneos, ambos guardaram segredo de tal origem, ou revelaram-no apenas por palavras crípticas, em código dificilmente decifrável por imperitos: nunca souberam esse pormenor, creio-o, um do outro — e poucos, se é que alguns, são os que os ligam por essa via ínvia e remota. Também os ramos de uma árvore dessabem da sua consanguinidade. A individualidade mais não é do que a expressão de uma ignorância procurada ou, no caso dos espíritos inquietos, artificiosa.

Escala de Richter

Nunca um homem revela tão claramente o seu carácter como quando descreve outro.

[Jean Paul Richter]

16.4.18

Viagens & outras paragens

William Turner, Rain, Steam and Speed, 1844

15.4.18

O reconhecimento

Vi-o ao final da manhã e só agora associo a face a um nome. Ouvi os netos chamarem-no, segui os fios do bigode ascendentes quando sorriu e me pareceu feliz, vi o traje de estar em família, o casaco de um verde outonal, a camisa de quadrados de tom bege, as calças indigo, o cabelo cinzento, esticado a partir do extremo superior da orelha, os sapatos Oxford no tom natural do couro; numa falha completa de memória pensei «de onde o conheço»? Precisei de oito horas para me recordar. Ou seja: estava tão bem disfarçado dele próprio que não o reconheci.

A livraria toda

«Então vamos levar a livraria toda?» — pergunta a guia da loja enquanto aponta à cliente cada uma das bancas onde se empilham os livros com etiquetas de promoção. Procura descontos, não livros, a leitora, e quando a vejo sair, minutos depois, não leva nem uns nem outros. Escolher livros por subtração de preço é o mesmo que subtrair valor ao tempo, ou seja, à vida. Encontro um dos dois livros que procuro, graças à mesma guia, que me conduz pelo labirinto das estantes até um autor que desconhece, e cujo nome soletro, porque o sistema só funciona com exatidões. As exatidões são as âncoras que fundeiam as inseguranças. Não estava em promoção, o livro que comprei, e em que em cada página encontro a teia da ambiguidade. Comprar um livro é comprar uma esperança, que é sempre inexata. Comprar muitos, a eito, é levar o vazio. Entre levar o vazio e as mãos vazias, ela levava as mãos vazias. No lugar dela, eu teria feito o mesmo.

Os poetas portugueses

Casanova, nas suas memórias, censura os portugueses por terem deixado morrer de fome o seu maior poeta. «Não sabia que os deixavam morrer todos assim, sem fazer distinção entre os grandes e os pequenos» — condescende Agustina.