24.7.17

Viver na era da velocidade

No inverno de 1705 Bach empreendeu a sua viagem a pé para Lubeck, para ouvir Buxtehude. Talvez lhe tenha sido proposto assumir o lugar do velho organista e talvez o tenha recusado, porque o cargo trazia consigo um requisito extra-musical: quem o aceitasse teria que casar com uma das filhas do titular. Buxtehude, ele próprio, assumiu o lugar a 11 de abril de 1668 e casou com a filha mais nova do seu antecessor a 3 de agosto desse ano. Após uma vida bem sucedida no lugar, quando morreu, Buxtehude foi enterrado a16 de maio de 1707, e o seu sucessor, anteriormente seu assistente, foi nomeado a 23 de junho e viria a casar a 5 de setembro, com a filha do mestre. Não sei o que para mim será motivo de maior admiração: se esta tradição do emprego incluir noiva e boda, se a celeridade de todo o processo. Podemos achar que vivemos na era da velocidade: francamente, estamos deveras enganados.

Sonata a dois

Dieterich Buxtehude, Sonata V à due, Op. 2


[Para ouvir Buxtehude viajou Bach quatrocentos quilómetros a pé, num bravio inverno.]

Como proa de submarino

A rapariga que vendia livros escorou-se com a muralha de um sorriso bonito às arremetidas do escritor com canetas no bolso da camisa manchada pelo suor. Contava-lhe ele as suas aventuras na escrita e na vida com face rotunda, raiada de vasos sanguíneos rubros, olhos vítreos, abdómen proeminente como proa de submarino. A mulher do escritor aguardava, sentada, com um livro comprado à menina do sorriso, enquanto o marido se alongava no monólogo pastoso como massa tendida. Naquele espaço curto, e andando eu em maré de coincidências, haveria de aparecer um conhecimento comum, a mim e ao escritor. Do conhecimento comum, todas as minhas memórias envolvem momentos agradáveis. Mas a ele, não. O conhecimento comum tinha-lhe colocado a carreira em ponto morto, recordou à mulher, em tom preciso, quando regressou temporariamente ao porto de abrigo, junto a ela. Vislumbrei num segundo as horas infindas de ódio fermentado, ocorridas muitos anos antes do fortuito encontro. Não quereria ter estado por perto dos dois, então, como estava ali agora. Desabafou e perscrutou o espaço em silêncio. As manchas de suor haviam-se tornado amazónicas. O livro de apontamentos espreitava, como periscópio, do bolso das calças amplas. Respirou fundo, duas ou três vezes. Puxou os ombros para trás e, reposto o amor-próprio, rumou de novo em direção à rapariga que vendia livros, que o recebeu, admiravelmente, com o bonito sorriso com que se escusava às investidas dele.

23.7.17

mudança de luz

sabes? a cidade precisa
de toda uma pintura
nova 
com a luz do teu olhar

vê quão bonitos ficaram
o mar o céu a lua
já pintados por ti

O vento da tarde

Se todos os ventos são o mesmo, este é o vento da desgraça de Eréndira, a cândida, o que começou quando ela estava a dar banho à avó, que se parecia com uma formosa baleia branca no tanque de mármore.

[O vento que fez estremecer a enorme mansão de argamassa lunar, na orla do deserto, que entrou no quarto como uma matilha de cães e derrubou o candelabro contra os cortinados.]

Calor a sério

Calor forte, calor a sério, é em Comala, que está sobre as brasas da terra, sobre a boca do inferno. Muitos dos que por lá morrem, quando chegam ao inferno, regressam para vir buscar um cobertor.

[Para Comala, viaja-se à procura de Pedro Páramo.]

Drama inquietante

O crítico da Variety refere-se-lhe como um drama inquietante, concretizando a inquietação na violenta ambiguidade moral do filme. A história de Lady Macbeth funciona como a de uma Lady Chatterley emendada por Dostoievsky, mas em que o realizador se concedesse a ele próprio o benefício de emendar Dostoievsky. A história original é de Nicolai Leskov e não de Dostoievsky, embora tenha sido publicada na revista deste. Mas há um fio dostoievskiano subjacente, tal como o há shakespeariano. Creio, contudo, mais do primeiro que do segundo, apesar do nome. A inquietação é causada pela inversão das premissas morais convencionais, mas também, creio, e porque li apenas críticas escritas por homens, pelo facto da protagonista ser mulher. De algum modo, a violenta ambiguidade moral que passaria incólume numa história com protagonista masculino é, para os que escreveram sobre o filme, perturbadora como não o seria caso a personagem central fosse um homem. Talvez me tenha perturbado mais esta constatação do que a história cortante como o cinzento frio do céu sobre o mar do norte, que enquadra o filme como uma moldura de aço.

21.7.17

um compêndio finito

como é que o compêndio
finito de formas
da tua ausência
pode conter
o tempo infinito
da tua ausência?

Uma minudência após a indulgência

Se Potemkin não era couraçado, muito menos o será um banal escrevinhador a viver neste jardim de amenas temperaturas, em esplanadas tranquilas, onde a couraça é inútil sobrecarga. Um homem não é de ferro, ia quase dizendo, mas não disse, quando pedi a sobremesa indicadora de gulodice reprimida, caindo a pique no poço da tentação. Dona Yara, diligente, lendo nos meus olhos a metanoia de dois mil anos, pelo menos, de herança judaico-cristã, disse com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Leva frutos, doutor. [Intervalo grande.] E soja. [Com tom de contrabandista de uísque na era da proibição.] Ah, leva soja. É praticamente como obter uma indulgência trazida pela pomba do Espírito Santo da Praça de São Pedro. Já me salvou a alma, Dona Yara. E agora aproveito para escrever à leitora esta minudência inconsequente, enquanto não desfaço o sabor do pecado com o café a seguir. Pecar por pecar, ao menos tira-se partido do dito, pois não é leitora? E como leva soja é, quando muito, um pecadilho, coisa de nada. Minudência, também.

20.7.17

O descouraçado Potemkin

Como trabalhavam em partes diferentes do palácio durante o dia, Catarina e Potemkin escreviam bilhetes um ao outro, continuando as conversas da noite: declarações de amor, misturadas com negócios de estado, mexericos da corte,  notas sobre a respetiva saúde e admoestações carinhosas.

a gaiola

por vezes abria a porta da gaiola
onde guardava o coração

Uma corda partida

Hans Holbein, Os embaixadores [pormenor], 1533
Talvez a corda partida do alaúde fosse uma forma de Holbein enviar uma mensagem a Francesco Sforza. Uma aliança só é harmoniosa, como o som de um alaúde, se não houver deserções, se todas as cordas estiverem inteiras.

19.7.17

Rodas dentadas

Na vida, que nos surge a girar como uma roda livre, é possível vislumbrar por vezes as rodas dentadas subjacentes, tão perfeitamente ajustadas que parece predestinação, trabalho de arquitetura, obra de precisão. Nessa altura, duvidamos das nossas descrenças mais profundas, e somos capazes de criar um criador suficientemente engenhoso para gerar tal esmerado mecanismo. Da observação das rodas dentadas em funcionamento, advém a tranquilidade do que é inevitável. Dente após dente, o presente absorve o futuro. O ruído exato do encaixe das rodas dá o conforto de que o criador que criámos tem o mapa do caminho, sabe onde quer ir e como lá chegar. Ao estado decorrente de tal observação podemos, até, chamar felicidade.

aprendiz de poeta

espalho outra película de luz
sobre camadas lucentes
que antes pintei
na minha ânsia insana
de te captar de corpo inteiro
nas três dimensões
de um poema relevado
na tela da página