16.11.17

ourives

escolho palavras com as mãos

como se tacteasse diamantes na areia

jóias lapidadas em leito de oceanos

rios iridescentes nas faces lúcidas


sem ti o meu coração é obscuro

urge uma palavra tua para iluminá-lo

coração em jeito de prisma o meu

nele só de luz tua nascem arcos-íris

O caminho mais curto

Prokofiev estava doente e não pode comparecer à estreia da sua Primeira Sonata para Piano, tocada por outra pessoa. Ouviu pelo telefone.

[Notado por Anne Carson, que designou o facto de desapontamento musical. Discordo do desapontamento. Ao ouvir tocar pelo telefone, nada se interpôs entre o compositor e a sua música. O caminho mais curto entre ambos foi um fio de cobre.]

15.11.17

Os representantes

É curioso, e não creio que isto tenha sido observado até agora, que os países tenham escolhido para os representar, escritores que não se parecem demasiado com eles. Pensa-se, por exemplo, que Inglaterra poderia ter escolhido o Dr. Johnson como representante; mas não, Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é, digamos assim, o menos inglês dos escritores ingleses. O típico de Inglaterra é o understatement, ou seja é o dizer um pouco menos das coisas. Pelo contrário, Shakespeare tendia para a hipérbole na metáfora, e não nos surpreenderia nada que Shakespeare tivesse sido italiano ou judeu, por exemplo. Outro caso é o da Alemanha; um país admirável, tão facilmente fanático, escolhe precisamente um homem tolerante, que não é fanático, e a quem não importa demasiado o conceito de pátria; escolhe Goethe. Em França, não se escolheu um autor, mas há um apreço especial por Hugo. Hugo é estrangeiro em França; Hugo, com aquelas grandes decorações, com as vastas metáforas, não é típico de França. Outro caso ainda mais curioso é o de Espanha. Espanha poderia ter sido representada por Lope, por Calderón, por Quevedo. Mas não, Espanha está representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, mas é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes, nem os vícios espanhóis.

[De uma das conferências de Borges. Versão de x.]

14.11.17

Café de força dupla

São os dentes, diz Dona Yara, na fala lá dela que atravessou o equador, para justificar os seus olhos pesados de sono, o sorriso ausente, o gesto vivo, mas mais lento do que já o conheci. A pequena Soraia tem os dentes a irromper e Dona Yara as pálpebras a fechar. Tenho tanto sono, doutor, lamenta a Dona. Evidentemente não vou receitar o meu próprio remédio para noites curtas demais: um café de Dona Yara. Toda a gente sabe que um remédio não causa efeito em quem o prepara. Mas também não preciso receitar nada. É que a Dona volta, com o olhar de novo desperto e brilhante: Sabe que a menina faz amanhã um ano? Por acaso sei, que eu tomo nota destas coisas, mas isso não digo. Amanhã faço questão de lá estar de manhã bem cedo para dar os parabéns à mãe. Vou precisar de um café de força dupla, mas também quando é que não preciso?