23.9.17

O ofertante previdente

Se hoje me sonhares, reserva uma jarra, porque levo flores acabadas de colher, para ti.

Aquilo que somos

Antes de morrer, um viticultor revelou, ao ouvido de Marcela, o seu segredo, ‘A uva,’ sussurrou, ‘está cheia de vinho.’ Marcela contou a Eduardo, que mo contou e a outras gentes, acrescentando, ‘Se a uva está cheia de vinho, talvez nós sejamos as palavras que contam aquilo que somos.’

22.9.17

O funcionamento do mundo

E foi apenas porque algo no mundo não funcionou, que ele sobreviveu para estar comigo naquela conversa, longa conversa, sobre o funcionamento do mundo. O mundo funcionou afinal quando não funcionou, na minha perspetiva egoísta de ter um amigo novo, ou seja, um amigo que nasceu de novo e, claro, na perspetiva egoísta, compreensivelmente egoísta, dele, por poder estar ali a contar-me o seu nascimento. O mundo funciona melhor do que nunca, mesmo quando não funciona, sobretudo quando não funciona, quando um homem pode narrar a outro o seu próprio nascimento, por si mesmo presenciado.

21.9.17

Horas extraordinárias

Tantas horas extraordinárias que somei hoje. 

Elegância

Foi ao escrever ‘não’, melhor, enquanto pensava de que forma escreveria ‘não’, com ou sem eufemismo, contornado ou direto, aguçado ou boleado, que me apercebi que o ‘não’ pressupõe uma elegância a que o ‘sim’ se pode eximir com facilidade: descuidado, distraído, diletante. O ‘sim’ pode aparecer tal como se acabasse de se levantar, desgrenhado, piscando à luz, por escanhoar. Já o ‘não’, ah, o ‘não’, exige laço, sapatos de verniz, e aquele ‘je ne sais quois’ que transforma em invisível o que é visível e em visível o que é invisível. Um ‘não’ elegante não pode ser menos do que um clássico.

Exuberância irracional

‘É um café assim tipo duplo. Tipo dois em um.’ E a cliente à minha frente na fila sorri, com ar comprometido, como se houvesse algum segredo na composição daquele café, alguma alquimia que transforme o sono em exuberância irracional. No café tipo duplo dela pousa o meu olhar inquiridor, e é bem menos duplo que o que Dona Yara me entrega com aquela fala lá dela que atravessou o equador, ‘Seu café, doutor,’ sem eu pedir sequer. O meu café, se as contas não me falham, e se o da cliente à minha frente na fila é tipo duplo, o meu café, digo, é tipo quádruplo. O que, tendo em conta que o sono hoje até está domesticado, me atemoriza no que causará na minha dose diária da exuberância irracional, e a leitora fará o favor de me desculpar a repetição, assim tipo pleonasmo.

20.9.17

Afinidades


‘Li e achei que gostarias’, ‘visita, se alguma vez lá fores’, ‘se fosses tu, como farias?’, ‘contigo, não tenho medo de ser ridículo’, ‘que cor é esta que só tu e eu vemos?’ 

Afinidades: linhas paralelas que se cruzam antes do infinito.

Sair a dançar de manhã

Daqui da esplanada ouço Dona Aureliana a cantar no café. É cedo, estamos apenas três sentados cá fora, as Donas lá dentro, cirandando, e Dona Aureliana chegou dançando, ao som de uma música lá da terra dela, que atravessou o equador. ‘De manhã é que se dança o dia,’ digo eu e ela responde ‘É preciso é alegria logo ao amanhecer’ e é, porque não havendo de manhã, quando é que há, penso eu? A alegria é assim uma espécie de peixe fresco, não é leitora? [E se esta não é a pior metáfora da história deste blog, também não é a melhor, não.]

Conto os trocos, as moedinhas de cobre oxidado, para aliviar a carteira do peso e pago assim o consumo. ‘Darão mais jeito à senhora do que a mim, decerto, Dona Aureliana,’ digo eu. A Dona faz um sorriso mefistofélico, e assegura-me, ‘Vou guardar aqui à parte e amanhã vou devolver todos ao doutor. Eu gosto é de ser assim má.’ E sai a dançar ao som da morna que se ouve em fundo. E eu não acredito nela. Isto é, quem dança pela manhã não pode gostar de ser má, assim. Mas amanhã é capaz de me devolver os trocos, nisso acredito.

19.9.17

um ser quase

reconstróis

me?

Dar alguma ordem a nós próprios

Willem de Kooning, Composição, 1955
A atitude de que a natureza é caótica e que o artista tem que a ordenar é um ponto de vista absurdo, penso eu. Apenas podemos esperar dar alguma ordem a nós próprios.

[Willem de Kooning]

O meu paradoxo com os blogs

Apesar do carácter transitório, volátil, flutuante, de um post, que tem como destino inevitável desaparecer no fundo da página, que tende para o fundo do tempo, tenho para mim que os melhores blogs, ou aqueles a que volto com mais ânsia, ou aqueles que começo a ficar inquieto se levam dias ou semanas sem atualização, são precisamente os que mais se aproximam da intemporalidade, que por uma qualquer combinação mágica de talento, bom senso e bom gosto, conseguem, sei que conseguem, arrancar-me um ‘ah, caramba’ quer os leia agora, quer daqui a um ano ou três. São raros, delicados, preciosos, e ah, caramba, não sei sequer se o sabem.