19.1.18

Receita da felicidade

Diz Leopardi: «Feliz é aquele que deixa de lado os seus desejos e aprecia e se contenta com os pequenos prazeres, e continua esperançoso, sem nunca ter em conta a sua própria experiência contrária, geral ou particular. E, como resultado, abençoadas sejam as almas modestas, ou as que são distraídas e pouco habituadas a refletir.»

[Se a alma for só distraída, será que conta?]

Para lá do Nobel

Se Ricardo Reis recebeu um Nobel póstumo, que prémio receberia Bernardo Soares, o maior escritor do século vinte, em vida?

18.1.18

A ficar em silêncio

Tudo começará a ficar em silêncio, a apagar-se com a segurança de um «para sempre», a fundir-se com o nada, a mover-se apenas graças ao vento da morte que andará como um gato raivoso, percorrendo os bairros, com a felicidade que antes podiamos ver apenas em alguns caranguejos, assim se irá combinando com essa areia invisível que dorme tranquila em paragens esquecidas e no final parecerá que nenhum de nós esteve aqui.

[De René Hernández, adaptado.]

Sovados

Todos somos estrangeiros no corpo que habitamos. Nas horas de inconsciência ou otimismo, julgamos começar a conhecer o nosso terrritório. Mas o otimismo é impermanente, a inconsciência, inconstante, e a vida, quando nos encontra sem guarda, sova-nos.

Da existência informe

Deus não pode ter a noção de belo ou feio, que só se obtém por comparação. Uma existência sem beleza é informe, diria. Mas face ao que Deus pode sentir, não tenho termo de comparação, lá está.

Barbas de molho

Para ficar bem no medalhão, para aparentar carisma, força, domínio, o cardeal Bembo teve que deixar crescer a barba, a pedido de Cellini. Assim se eternizou no bronze. Aos retratos que eternizam a minha barba em papel mate, escondo-os eu em caixas ocultas, em locais recônditos.

17.1.18

Tesouras nas mãos

«Não corras com tesouras nas mãos», disseram-me. Mas que posso fazer, se cair mais vezes enquanto ando do que enquanto corro?

Espanto, maravilha e desespero

Para meu espanto, maravilha e desespero, a criança que fui segue a par do homem que sou; por vezes, substituem-se, sem que eu o saiba, senão a posteriori.